Sexta-feira, Janeiro 28

BUT IT'S MY DESTINY TO BE THE
KING OF PAIN

Foi então que lhe encarei a face. Um principe, todo recolhido em seu manto de infantilidade e orgulho, gabando-se de um poder que não lhe cabia. Seus olhos estavam preenchidos com o egoncentrismo de uma nação inteira, e era fácil notar que a culpa de toda a revolta instalada em seu povo era a vestimenta de sua consciência. Nunca pude, de fato, lhe tirar a imagem que ele mesmo implantara de si em sua mente, já que todos os que tentaram logo desistiram de tal ato. Quem é o sábio que sabe como manipular sua mente e coração? Poucos têm esse poder... Mas, o jovem principe não sabia de tal fato, e mergulhava-se num poço de ilusão enegricida com suas próprias lágrimas passadas. Julgava ser forte o bastante para enfrentar qualquer tipo de sapatiado, seja ritmico ou lerdo como uma tartaruga.

Era tão pretencioso, o garoto. Achava que o vocabulário popular era pobre demais para ocupar sua língua, as roupas da moda eram incômodas demais para seu gosto, a culinária da cidade não fazia bem ao seu paladar... Afastava de si todo e qualquer reflexo humano que se dispunha a caminhar ao seu lado, colocando somente a si em um pedestal de diamantes. Nada mais, ninguem mais, era de sua altura. Ao lado fantasmas de um pretérito imperfeito, cujo rosto feito de porcelana dos pequenos bonecos representativos, ele havia desfeito com sua própria força... Ah, frágil força essa que se acalentava numa imagem poderosa, mística. Para ele, o desafiante poderia ser qualquer mago, que sá o mais poderoso, mas não colocaria seu império abaixo. Império liderado, administrado, vivido e recebido por um individuo: suas maldades.

O que deixamos claro nas pétalas rosadas que caem das cerejeiras japonesas eram, somente, mais uma palavra em meio a livros e livros existentes por todo o mundo. Para falar a verdade, nenhum tipo de leitura lhe interessava... Para quê entender o mundo àfora? Logo mais ele seria seu, e então - somente então - poderia descansar os dedos que apontavam os culpados da multidão, lotando a fila da forma e os calabouços de seu castelo feito à ouro. Foi então que, como num conto de fadas, o seu sonho tornou-se um pesadelo. Seus escravos submissos ergueram a coluna torta e cansada, tornando-se mais fortes que seus maiores soldados. As serviçais empunharam os facões e deixaram as panelas de ferro à queimar no fogão de lenha localizado na cozinha exterior da demarcação do principe-rei. Avançavam as tropas da democracia, prontas para implantar a discórdia temporária no perfeito mandado do jovem inexperiente. Invadiram seus muros, persuadiram seus soldados, e a cada passo dado mais o exercito enfurecido e revoltado dos injustiçados aumentava. Quem se opunha ia a falência de sua vida, deixando para trás toda sua familia e indo viver em terras espirituais.

A imagem que se seguiu foi sangue por todos os aposentos, e cada um dos atingidos despedaçando o farsante imperialista... Por fim, seu castelo de ouro virara manteiga ao Sol, derretendo, caindo. Os subordinados já não lhe deviam satisfações, os escravos eram livres, fortes, prontos para seguir com suas vidas, e as amantes logo se apegaram aos heróis da revolução. Para a comemoração, um banquete fora feito... Fartíssimo de carne, pães e vinhos, espalhados pela longa mesa do aposento rústico ao ar livre, onde antes era localizada o ceifador de almas inocentes: a forca. As almas, felizes como nunca, esbaldavam-se da carne do Desprezível Rei, e enxiam a garganta com o sangue deste, servido e jarros enormes. Aquele era o fim de quem pouco entendia de si mesmo, e que se julgava tão sábio quanto qualquer cientista revolucionário da época.